Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008

 

Desperto essa manhã com uma certa embriaguez de mim mesmo, sob o efeito de uma droga inexistente, totalmente absorto em meus pensamentos confusos, mas não dava ouvidos. O meu café da manha foi especial para mim mesmo, com a minha melhor louça, daquelas que só retiramos da caixa quando há uma visita especial, afinal quem mais especial que mim mesmo?
A fumaça e exalava da xícara branca em estilo clássico, dançava, tendo ao fundo a imagem de um azul cansado do cinza que envolvia a cidade, a lagoa cansada de suportar todas a chuva lagrimosa que descia dos céus durante dias inteiros. E eu anestesiado com essa paisagem que parecia estar sendo recomposta diante de meus olhos, parecei ser pintada novamente, redescoberta após anos de esquecimento.
Musica calma, e tranqüila embala as minhas decisões do dia, ir ou não ao escritório? Ler ou não aquele relatório urgente de faturamento? Desligar ou não os celulares? Nada disso era importante, esse dia seria meu, era o dia do acerto comigo mesmo. Resolvo ter a minha beleza só para mim, roupa escolhida, banho tomado, vamos a praia de mãos dadas, eu e minha alma, que parecia estar fora do meu corpo, como um extravio morno, me deixando inconsciente de mim mesmo.
Algumas nuvens brancas com a leveza de grandes algodões, da brancura dos deuses, um vento gélido vindo dos Alpes nevados que não existem, o clima do rio não era do rio, parecia de qualquer outro lugar, o rio estava diferente ou diferente estava eu? O mar era azul e por vezes verde, os dois irmãos era de uma sombra que não lhe era característica, e nessa cidade sempre envolvida por uma atmosfera de exageros sigo pelas areias brancas e gélidas como neve, caminhando de mãos dadas com a minha alma que se fazia renascer. Colhia as conchas deixadas nas areias de si mesmo, se construía, e por fezes tentava refazer a barreira anti-sofrimento que em algum momento foi perdida, neutralizada por um cavalo de tróia qualquer.
Horas que pareciam intermináveis foram se passando comigo deitado na areia de mim mesmo, parecia adormecido, mas era sonolento de mim mesmo, meus olhos viam sem realmente ver, ouvido ouviam se ouvir, era um ser alheio a tudo, quente e morto, jazia morto mas com vida, meu coração batia sem viver.
A vida parecia voltar aos poucos ao corpo vivo sem o ter vontade, a vontade de mexer-me era restaurada, minha alma parecia ter voltado ao seu lugar de origem, voltava ao comando do corpo, queria dar passos não sozinha, mas com o conjunto corpo-alma.
De volta ao lar, vejo a cidade lentamente se entregando ao entardecer, a noite prometia ser de estrelas luminosas e ventos alpinos, a escuridão se fazia e as velas começavam a iluminar a sala, o vinho pousado na mesinha do canto, a taça, e eu ali a ver a cidade diminuir seu ritmo. Resolvo sair do quintal de mim mesmo e ir para entre os outros aos bares. Mais um ritual seguido, eu com o meu melhor fato, minha melhor veste, como se fosse dia de domingo, vou a ter com os outros o que não poderia ter comigo mesmo. Encontro alguns conhecidos e conversas sobre tudo, sobre o que me é consciente e o que não é.
Filosofias sempre baratas, coisas de bar, e entre bebidas que chegam e saem, conversas que se iniciam e acabam sem nenhuma pretensão de ser realmente uma coisa importante. Me despeço e vou, caminhando pelas ruas com suas amendoeiras inúteis, por entre as lojas de grandes cifras, de grandes chefes e que nada me dizem ao serem olhadas, passo por gente de todo tipo, indo e vindo. Meu corpo é cansado do dia de nada. Minha casa continua do jeito que foi deixada, algumas velas ainda queimam o resto que combustível que lhes restam, a chama tremula a minha frente dando seus últimos minutos de luz, apaga-se com uma fumaça densa e meu corpo deslizante gosmento pousa recostado em um sofá que não recebe ninguém, uma casa onde só eu ando.
Adormeço, calmo, com a propriedade de uma criança, com um vazio da mente...
 

Conversas com a mãe em alem mar: “amar é fazer concessões todo o tempo”



publicado por renovatio às 19:06 | link do post | comentar | favorito

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