Quarta-feira, 11 de Junho de 2008

 

Hoje recebi um telefonema de uma amiga jornalista me convidando pra ir a um lugar com ela, perguntei onde, mas ela disse que seria uma surpresa, desconfiei logo, mas resolvi aceitar o convite, ela perguntou onde eu estava, disse que estava no museu e ela toda segura de si disse “- te pego ai em 15 minutos”, claro que não acreditei, os cariocas tem uma péssima mania de se atrasar, ela chegou depois de 1h....

 

Curioso que sou fiquei perguntando a ela onde estava me levando, e claro que não deu nem uma pista, dizendo que eu ia gostar, pensei em muitas coisas que eu gostaria de ver naquela tarde, pensem em uma pessoa, mas logo lembrei que seria impossível, já que eles não se conheciam e eu não teria tanta sorte assim. Chegando ao lugar, eu vi uma coisa escrita “Fashion Rio”, olhei imediatamente pra cara dela com um leve desespero nos olhos, ela calma que só me disse “tem que se acostumar a esses eventos, concorda?”, não quis concordar com ela, simplesmente olhei pra minha roupa e retornei o olhar pra ela, ela riu e com um ar que ainda não sei se era irônico, gozação ou sincero disse na minha cara “você esta ótimo”, como estaria ótimo no covil das cobras vestido de jeans surrado, all star com 5 camadas de sujeira e uma camisa azul do live earth com a estampa do símbolo de reciclagem? E ela superbem vestida com uma roupa preta linda... Claro que ela não teria problemas, já eu não sei se teria muita sorte...

 

Estacionamos o carro e eu sem a mínima vontade de sair de lá, com certeza essa era uma péssima surpresa. Respirei e sai, pensei no conselho da ministra “relaxa e goza”. Ainda tínhamos de ficar perambulando por ai? Nossa queria só um cantinho pra me esconder, ou um buraco pra enfiar a minha cabeça, invejei as avestruzes, todos me olhavam por algum motivo, mas seguia repetindo pra mim mesmo “sou invisível, sou invisível, sou invisível...” mas não estava funcionando, ela notou o meu desespero e me deu a mão num gesto de compaixão e solidariedade, mas isso não mudou o fato de querer esganar a infeliz, tínhamos que procurar um cara com um nome super complicado, não era de origem latina o sobrenome do infeliz, germânico talvez, imaginei uma pessoa completamente diferente e eis que surge na nossa frente o tal fulano, com uma cara de baiano, tive vontade de rir, mas me controlei. Ele imediatamente olhou pra ela, se cumprimentaram e ela nos apresentou, ele imediatamente olhou pra minha blusa e disse adoro esse tom de verde, putz jurava que era azul, mas fiquei calado.

 

Ele gentilmente nos conduziu, ou melhor, a conduziu, finalmente tinha me tornado invisível, aos nossos lugares na segunda fila de cadeiras MEGA DESCONFORTAVEIS dessas que a gente fica com dor na bunda de tanto ficar sentado... ficaram conversando um tempo ate que resolveu ir embora... E tive a oportunidade de falar pra ela o que eu estava sentindo “eu quero te matar, me lembra disso depois”. Começou o desfile, umas roupas super estranhas, pra mim eram uns farrapos, não entendia muito, olhava pros lados e as pessoas com expressões de aprovação, acho que só eu que estava achando estranho aquilo tudo. Os cabelos eram demais, todos pra cima, acho que tinha algum fio desencapado no inicio da passarela que dava choque no povo antes de entrar. E eu com meu sentimento de pena com as mulheres que passavam, nossa tão magras! Tinha vontade de levar um lanchinho pra elas depois, mas lembre que isso era chique, fiquei quieto assistindo a tudo me contorcendo na cadeira desconfortável. As modelos passavam na passarela com caras e bocas, com aquele andar típico e engraçado, e eu só conseguia me lembrar do Astrogildo, que era um esqueleto de plástico que ficava no laboratório de anatomia nos meus tempos de graduação. Seriam elas da mesma família do Astrogildo?

 

Terminado o desfile, achei finalmente que iríamos embora, já tinha sido torturado demais, mas pra minha surpresa tinha mais, fomos convidados pra um café e conversas, ou melhor, ela foi, o gremano-baiano não olhava na minha cara, melhor assim, afinal se ele achava que ser fino era toma chardonnay e ser mal educado com as pessoas, quem seria eu pra descordar, preferia ser invisível, e seguimos ao café. Conversa vai e conversa vem entre eles e eu quase tendo uma over-dose de café, percebi que as pessoas que estavam vestidas quase iguais a mim eram os trabalhadores do lugar, que levavam roupas pra cima e pra baixo, daí entendi o tratamento que eu recebia do baiano metido a europeu, tadinho dele, resolvi não questionar. O baiano tinha um péssimo habito de misturar vocábulos da língua inglesa em frases em português, nossa acho isso uma fala de respeito a língua, mas... E finalmente o baiano dirigiu a palavra a mim, perguntando se eu era ESTAGIARIO da Fernanda, mas nem liguei...eu tava realmente não dando importância a ele, só queria ir embora.

 

Fui indelicado e resolvi dizer que eu precisava ir embora, pra ver a reação da infeliz da minha amiga que estava entrevistando o baiano, ela disse que já estava terminando. Resolvi comer uma coisinha, tava morrendo de fome, tudo muito simples e caro, uma saladinha sem muitas frescuras custavam 30 reais, credo, quase morri ao ver esse preço, mas era o preço que tinha que pagar pela tortura e lembrei que o mercado da moda movimenta milhares de dólares por estação e que os bistrôs do lugar deviam faturar o mesmo volume de dinheiro, já que cobravam por uma micro salada 30 reais.

 

Decididamente não queria ficar mais ali, queria minha casa, meu chinelo, minha cama, e sair daquele mundo deprimente, claro que meu amor era melhor que todos ali, mais inteligente, gentil e simpático, mais mundo da moda não é pra mim decididamente, quando ouvi dizer que iríamos assistir mais um desfile, quase falei Caralho eu quero ir embora, mas fui... Depois de mais uma hora de bunda doida a coisa acabou, mas esse menos maluco que o anterior, roupas masculinas legais...

 

Antes que ouvisse mais um convite pra um café disse que precisava ir embora, tinha que terminar de preparar provas, e o baiano disse: “a paciência e a maior virtude humana” depois ainda citou o autor da frase Shakspeare em Macbeth, putz tadinho a frase não era assim, e ele conhecia Shakspeare?, mas só me deu vontade de responder com essa “vai tomar no cu” Nelson Rodrigues em A vida como ela é, mas fiquei calado... Peguei um táxi e voltei pra casa!

 

Mas ainda quero matar a Fernanda!

Amanha eu vou ler a entrevista do baiano no jornal, acho que ele é famoso, não sei, pra mim pouco importa...

 

P.S: amor promete pra mim que não irá me torturar dessa maneira?


sinto-me
música nada

publicado por renovatio às 02:34 | link do post | comentar | favorito

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