Segunda-feira, 23 de Junho de 2008

Terminei a leitura do livro “Viagem” da Cecília Meireles, esse livro me deixou inquieto, é como se perdesse o rumo, vagando dentro do meu próprio ser. A poesia sempre me tocou a alma, mas esse livro mexeu profundamente comigo, sinto que ainda estou a digerir seus versos. Ele foi sem duvidas alimento pra alma, e fica agora guardado dentro do meu ser, delicadamente envolto em uma renda, livre das corrosões causadas pelas perturbações diárias.

 

Se “a poesia é pra comer” esse livro é dotado da mais alta gastronomia,

 

 

 

deliciamo-nos a cada pagina, a cada verso que nos desnorteiam, na verdade estamos nos despindo, tirando as vestes de observações antigas a poesia nos consome, nos sangra, afia os nossos ossos em fios luminosos, nos despe desse corpo cansado. Depois nos dá uma veste nova, dotada de outra luz, com outras percepções.

 

Fiz uma pequena seleção de poemas que gostei mais, e que me tocaram de forma mais especial que outros.

 

Personagem

 

Teu nome é quase indiferente

E nem teu rosto já me inquieta.

A arte de amar é exatamente

A de ser poeta.

 

Para pensar em ti, me basta

O próprio amor que por ti sinto:

És a Idea, serena e casta,

Nutrida do enigma do instinto.

 

O lugar da tua presença

É um deserto, entre variedades:

Mas nesse deserto é que pensa

O olhar de todas as saudades.

 

Meus sonhos viajam rumos tristes

E, no seu profundo universo,

Tu, sem forma e sem nome, existes,

Silencioso, obscuro, disperso.

 

Toda as mascaras da vida

Se debruçam para o meu rosto,

Na alta noite desprotegida

Em que experimento o meu gosto.

Todas as mãos vindas ao mundo

Desfalecem sobre o meu peito,

E escuto o suspiro profundo

De um horizonte insatisfeito.

 

Oh! Que se apague a boca, o riso,

O olhar desses vultos precários,

Pelo improvável paraíso

Dos encontros imaginários!

 

Que ninguém e que nada exista,

De quanto a sombra em mim descansa:

- eu procuro o que não se avista,

dentre os fantasmas de esperança!

 

Teu corpo, teu rosto, teu nome,

Teu coração, tua existência,

Tudo – o espaço evita e consome:

E eu só conheço a tua ausência.

 

Eu só conheço o que não vejo.

E, nesse abismo do meu sonho,

Alheia a todo outro desejo,

Me decomponho e recomponho...

 

Serenata

 

Permite que feche os meus olhos,

Pois é muito longe e tão tarde!

Pensei que era apenas demora,

E cantando pus-me a esperar-te.

 

Permite que agora emudeça:

Que me conforme em ser sozinha.

Há uma doce luz no silencio

E da dor é de origem divina.

 

Permite que volte o meu rosto

Para um céu maior que este mundo,

E aprenda a ser dócil no sonho

Com as estrelas no seu rumo.

Assovio

 

Ninguém abra a sua porta

Para ver o que aconteceu:

Saímos de braço dado,

A noite escura mais eu.

 

Ela não sabe o meu rumo,

Eu não lhe pergunto o seu:

Não posso perder mais nada,

Si o que houve já se perdeu.

 

Vou pelo braço da noite,

Levando tudo o que é meu:

- a dor que os homens me deram,

e a canção que Deus me deu.

 

 

 


música Ainda Bem - Vanessa da mata

publicado por renovatio às 00:48 | link do post | comentar | favorito

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